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Texto 9 – De 16 a 23/06/2008

A educação do futuro

Domingos A. Giroletti

 

 

Como deverá ser a educação no futuro? Para iniciar uma reflexão sobre a matéria, valho-me do documento da Unesco, de 1998, “Os Quatro Pilares da Educação”.

O documento, ao rejeitar uma visão meramente instrumental e produtivista, afirma que a educação do homem do presente e do futuro deverá ser organizada em torno de quatro aprendizagens fundamentais:

O “aprender a conhecer”,

O “aprender a fazer”,

O “aprender a viver” e

O “aprender a ser”, via essencial que integra as três precedentes.

Com o primeiro, o “aprender a conhecer”, a ênfase recai no domínio dos próprios instrumentos do conhecimento, visto como “meio e finalidade da própria vida humana”. É “meio” porque o conhecimento, na nossa época, tornou-se o principal fator produtivo e “finalidade” porque o compreender, o conhecer e o descobrir tornam-se fontes inesgotáveis de prazer e de auto-realização.

O documento adverte-nos contra a especialização excessiva, recomendando-nos que o conhecimento seja transmitido juntamente com a cultura geral. Diremos que esta não se confunde com “generalidade” que, segundo Ítalo Calvino, “é a pior praga da escrita de hoje” – e, certamente, o pior produto que um sistema educacional possa vir a produzir. A formação cultural, pelo contrário, além de ser cimento das sociedades no tempo e no espaço, favorece a abertura do ser humano para outros campos do conhecimento. O sucesso de um programa de educação (aí incluído o primário), poderá ser medido pela sua capacidade de transmitir às pessoas o impulso e as bases para o aprender permanente ou para o aprender a aprender, que deverá ser mantido de forma continuada ao longo da vida.

O segundo pilar, o “aprender a fazer”, refere-se à formação profissional que, na era da chamada de terceira revolução industrial, passa por profundas transformações. Não há mais profissão ou conhecimentos que se aprendem na Escola para serem usados pelo resto da vida. As tarefas manuais de produção são gradativamente substituídas por outras, mais intelectuais, que dizem respeito ao comando de máquinas ou de processos, cada vez mais inteligentes e sofisticados na proporção em que o trabalho se “desmaterializa”. Por isto, o desafio da formação profissional na atualidade está, segundo o documento, na ênfase à “competência individual”, um coquetel que mistura, em proporções variadas, a formação técnica atualizada com a capacidade de iniciativa e de comunicação, com a aptidão para o trabalho em equipe, com o gosto pelo risco e com a habilidade para gerir e resolver conflitos.

O terceiro pilar é o “aprender a viver juntos ou conviver com os outros”. A globalização, ao acentuar a “tendência em direção à homogeneização global e à fascinação com a diferença”, tanto aproxima os diferentes quanto, pela acentuação das desigualdades sociais, regionais e entre países, pode acelerar a separação e os conflitos inter étnicos no mesmo território ou entre Estados vizinhos. A diminuição da violência e a busca da paz tornam-se objetivos cada vez mais permanentes da Escola e da sociedade. Não há dúvida de que a experiência multirracial e multicultural praticada no Brasil desde a colonização pode e deverá ser uma referência cada vez mais importante para o presente e para o futuro. O “aprender a viver juntos” deverá traduzir-se em maior capacidade de compreender o diferente, de argumentar, de dialogar, de negociar e participar de projetos comuns. A prática de esportes e os programas de natureza cultural oferecem infindas possibilidades para um convívio mais fraterno e enriquecedor entre pessoas diferentes, mas que podem, pacificamente, perseguir um objetivo comum.

Com o último pilar, o “aprender a ser”, o documento da UNESCO preconiza o compromisso da educação com o desenvolvimento total da pessoa humana: o espírito e o corpo; a inteligência, a sensibilidade e o sentido estético; a vontade, a responsabilidade individual e a espiritualidade. O “aprender a ser” implica o autoconhecimento, a autonomia do sujeito e seu espírito de iniciativa e de independência; reafirma o reconhecimento do outro: a diversidade de personalidades e a pluralidade de estilos, valores e idéias que fazem a riqueza do ser humano e a beleza da humanidade.

Cabe, para concluir esta reflexão, estabelecer uma última analogia com a “multiplicidade” em oposição à “unicidade”, a quinta qualidade da literatura, segundo Ítalo Calvino, para o próximo milênio.

Um sistema educacional que objetiva preparar o sujeito para o mundo de incerteza e para a construção do futuro deverá também dar maior ênfase à curiosidade, à criatividade, à inovação e à imaginação. “Quem somos nós, pergunta-se Calvino, senão uma combinatória de experiências e informações, de leituras e de imaginação?” (“Seis Propostas para o Próximo Milênio”).

Certamente, esta inventividade humana será o “leitmotiv” a inspirar a educação e a literatura no próximo milênio.

Comentários»

1. josé augusto fabri - Junho 16, 2008

Eliana, o autor toca em um ponto muito importante: APRENDER A APRENDER. Minhas questões permeiam justamente isto:
Quando um aluno aprende a aprender?
Quais são as técnicas necessário para que isto ocorra?
Como medir se o aluno aprendeu a aprender?
Discordo com o autor em dois aspectos, lembre-se que minhas considerações são puramente interpretadas:
1 – Acredito que um alto grau de especialização (não sei quanto) abre várias portas no setor produtivo, ninguém consegue ser todo o tempo pluralista. O ideal na formação é possuir um alto nível de especialização e um visão pluralista em CERTOS aspectos culturais (resta saber quais).
2 – Gostaria que alguém me respondesse a seguinte pergunta: Em qual momento na história a educação não foi do futuro? Na educação sempre alguém é preparado para o futuro. Não educamos nossos filhos, nossos alunos para o passado, correto!!!
Por fim, ficam mais algumas perguntas:
Quais serão os pilares tecnológicos do futuro? Estes pilares irão influenciar meu modo de trabalho ou meu modo de viver? Como?
Não devemos discutir isto na concepção do PPI?
Em tempo: a educação não é do futuro, a educação é o futuro.

2. Eunice Corrêa Sanches Belloti - Junho 18, 2008

Muito bom o texto e também muito bom o comentário do Guto.
Faço também meus esses questionamentos do Guto.

3. André Luiz Trindade - Junho 18, 2008

Este texto me lembra Fleury e Fleury (2001), que definem facetas de competência que os indivíduos precisam desenvolver e que lhes permitem agregar valores, tanto individuais (enriquecimentos social e como pessoa) quanto organizacionais (enriquecimentos profissional e corporativo).

Estas facetas são identificadas, pelos autores, como elementos de aprendizado, conquistáveis num processo evolutivo de 3 fases distintas, integráveis e interagentes:
•na primeira, memorização e disseminação de informações garantem aquisição e desenvolvimento de fragmentos potenciais de conhecimento;
• na segunda, as facetas (agir, mobilizar, transferir, aprender, engajar-se, vislumbrar estratégias e assumir responsabilidades) são provocadas por um processo de aprendizagem, motivada pela necessidade de tratar os fragmentos adquiridos;
•na terceira, tais saberes, devidamente compostos, representam a competência desejável, tanto para a sociabilização do indivíduo, quanto para sua realização profissional.

Observo, lendo o texto, que:
•o “aprender a conhecer” envolve todos os saberes (fragmentos) de uma forma geral, mas principalmente os do aprender e do enxergar (vislumbrar) estratégias;
•o “aprender a fazer” envolve os saberes do agir e do transferir;
•o “aprender a viver” envolve os saberes do mobilizar e do assumir responsabilidades;
•o “aprender a ser” envolve os saberes do engajar-se e do assumir responsabilidades.

Setzer (2004) concorda com a idéia evolucionária (mesmo que não exatamente com os mesmos termos apontados antes) e complementa dizendo que a competência é, a um só tempo, subjetiva (existe no universo interior das pessoas) e objetiva (o que quer que seja produzido a partir dela, poderá ser visto por qualquer um), considerando-a como resultado de aplicações (diretas ou não) de conhecimentos. O conhecimento, ele descreve como acúmulo de saberes, resultante de associações subjetivas e pragmáticas de conceitos, baseadas em uma vivência pessoal.

Considerando o que ambas as autorias definem, vejo que, uma vez mais, os pensamentos sobre a didática necessária acabam por engendrar-se, levando-nos a pensar:
•em como aproveitar todo o potencial possivel que os alunos tragam em si, para o desenvolvimento dos elementos que lhes façam competentes e conhecedores das áreas de interesse do ensino;
•em como associar tal potencial a suas vivências, o que, por certo, nos remete às discussões anteriores sobre como promover o “aprender a aprender” e a aprendizagem participativa.

Tentando responder ao Guto, acredito que não haja um momento no qual o aluno aprenda a aprender, pois isso deve acontecer o tempo todo. Nós, orientadores, temos que desenvolver essa necessidade de estímulo contínuo e é exatamente esta a motivação desta discussão toda. Quanto às técnicas, acredito que as discussões já realizadas, as pretendidas nas reuniões dos dias 24, 25 e 27 (próximos) e todas as que virão nas semanas seguintes, devem nos permitir uma idéia do que utilizar como instrumentos.

Referências:

FLEURY, Afonso C.C.; FLEURY, Maria T.L.; Estratégias Empresariais e Formação de Competências; Brasil: Atlas, 2001.

SETZER, Valdemar W.; Dado, Informação, Conhecimento e Competência; in: Folha de São Paulo – caderno Follha Educação, número 27; Brasil: Folha, 2004.

4. Elaine Pasqualini - Junho 19, 2008

Concordo com o autor ao enfatizar os 4 pilares da educação, extremamente importantes ao ensino e aprendizagem.
Porém, o texto adverte-nos “contra a especialização excessiva”. Concordo com o Guto nesse sentido.
É como na medicina dividida em especialidades. Se por exemplo, um profissional é especialista em determinada área, ele possivelmente resolverá um problema ou uma doença. Como um determinado problema pode envolver várias áreas ou especialidades, os profissionais devem trabalhar em equipe. Por isso, a importância do trabalho em equipe!!!!

Por outro lado, concondo com o autor, “recomendando-nos que o conhecimento seja transmitido juntamente com a cultura geral.”. Temos que ter uma visão geral das coisas que nos cerca, pois isso contribui para a criatividade e o pensamento crítico.

5. Sergio Castilho - Junho 22, 2008

Para o aluno aprender a aprender antes de tudo será necessário que o mesmo tenha ou adquira um auto estímulo para o aprender permanente (“O sucesso de um programa de educação (AI INCLUÍDO O PRIMÁRIO), poderá ser medido pela sua capacidade de transmitir às pessoas o impulso e as bases para o aprender permanente ou para o aprender a aprender”).
Talves seja possível atingir esta meta aflorando a curiosidade, a criatividade e seu espírito de iniciativa e de independência, como fala o texto.
Concordo com o Guto em relação a especialização, acrescentando apenas uma visão global e pluralista.

6. Nilton Zupa - Junho 22, 2008

No “presente” estudamos o “passado” para melhorar o “futuro”. É incrivel que isso não ocorra de forma acentuada com a nossa educação. Notadamente varios doutores da area da educação buscam novas alternativas para as mudanças ocasionadas pela globalização. Em tempos atuais, a educação não esta formatada para o futuro no Brasil. O texto nos fala dos 4 pilares da educação, eu comparo aos 3 pilares de sustentação de nossas vidas: 1- Mental ( busca pela cultura, leituras, aprimoramentos, conhecimentos macros) 2- Fisico ( relacionado a saude e bem estar das pessoas, bons amigos) e 3- Espiritual ( o lado da religiosidade), a busca do aprendizado da alma). O dois pilares tem em comum a busca do individuo pela sustentabilidade, pelo crescimento individual e do grupo.

7. Ismael Silva - Junho 22, 2008

Como deverá ser a educação no futuro?
Estamos no século XXI o futuro já nos atropelou. A tecnologia não só mudou as formas como se faz negócios mas também como as pessoas ser relacionam com outras pessoas e com o mundo. Na educação não é diferente, a tecnologia deve ser um instrumento fundamental para o sucesso do processo.
Aliados ao uso de tecnologias e metodologias o desenvolvimento dos quatro pilares é fundamental para uma formação plena de nossos educandos.
A autonominia deve ser incentivada, o ensino deve transformar o aluno em um perquiridor. Ele deve ter o controle de seu rítmo de aprendizado.
Os questionamentos sobre a especialização são pertinentes e muito importantes. Em nosso mundo do trabalho existe a necessidade de profissionais com grande especialização e também de pessoas com conhecimentos mais generalistas e com grande poder de articulação entre esses saberes.
Devemos motivar nossos educandos para o estudo para o trabalho em grupo.


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