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Texto 1 – De 21 até 27/04/2008

Docente de ensino superior atuando num processo de ensino ou de aprendizagem?

Considerando a prática comum dos professores do ensino superior como ponto de partida, é evidente que o que prevalece na atuação docente é um processo de ensino no qual o professor “ensina” aos alunos que “não sabem”; e estes reproduzem as informações recebidas nas provas ou nos exames buscando sua aprovação.

Prontamente alguém me diria que no processo de ensino o professor também quer que o aluno aprenda e, por conseguinte, o processo de ensino envolve o processo de aprendizagem. Eles não são dois processos separados; integram-se, são complementares. Então, por que a insinuação da distinção entre eles?

Justamente pelo fato de poderem ser complementares e se integrarem é que não são idênticos. É preciso compreender bem cada um deles para melhor entendermos como se pode fazer a correlação, a complementaridade e a integração de dois processos, transformando-os em um só.

Quando pensamos em ensinar, as idéias associativas nos levam a instruir, comunicar conhecimentos ou habilidades, fazer saber, mostrar, guiar, orientar, dirigir. São ações próprias de um professor, que aparece como agente principal e responsável pelo ensino. As atividades centralizam-se nele, na sua pessoa, nas suas qualidades e habilidades. Ele é o centro do processo. Neste, o professor costuma se perguntar: o que acho importante ensinar? Como vou ensinar? Como gosto ou prefiro ensinar? Como me é mais fácil ensinar?

Quando, porém, falamos em aprender, entendemos buscar informações, rever a própria experiência, adquirir habilidades, adaptar-se às mudanças, descobrir significado nos seres, nos fatos, nos fenômenos e nos acontecimentos, modificar atitudes e comportamentos. Todas as atividades que apontam para o aprendiz como agente principal e responsável pela sua aprendizagem. Elas estão centradas no aprendiz (aluno), em suas capacidades, possibilidades, necessidades, oportunidades e condições para que aprenda. No processo de aprendizagem, as perguntas que o professor se faz também são outras: o que o aluno precisa aprender para se formar como um profissional-cidadão? Como o aluno aprenderá melhor, fixará melhor? Que técnicas favorecerão a aprendizagem do aluno? Como será feita a avaliação de forma que o incentive a aprender?

Os processos de ensino e aprendizagem são distintos. A ênfase num ou noutro fará com que os resultados da integração ou correlação dos dois processos sejam completamente diferentes.

No meu entender, de modo geral, até hoje a docência universitária colocou sua ênfase no processo de ensino. Por isso, a organização curricular continua fechada e estanque, as disciplinas são maximamente conteudísticas e só são oferecidas as concernentes aos assuntos técnicos e profissionalizantes dos cursos, com pouca abertura para outras áreas de conhecimento, quase nenhuma para a interdisciplinaridade ou para temas transversais, pouco incentivos à investigação científica na graduação.

A metodologia em sua quase totalidade está centrada em transmissão ou comunicação oral de temas ou assuntos acabados por parte dos professores (aulas expositivas), ou leitura de livros e artigos e sua repetição em classe. Predomínio de um programa a ser cumprido. A avaliação é usada como averiguação do que foi assimilado do curso, mediante provas tradicionais e notas classificatórias e aprobatórias ou não.

O corpo docente ainda é recrutado entre profissionais, dos quais se exige um mestrado ou doutorado, que os torne mais competentes na comunicação de conhecimento. Deles, no entanto, ainda não se pedem competências profissionais de um educador no que diz respeito à área pedagógica e à perspectiva político-social. A função continua sendo a do professor que vem para “ensinar os que não sabem”.

Bem diferentes serão as conseqüências da docência universitária quando sua ênfase se der no processo de aprendizagem. (…)

Competência Pedagógica do Professor Universitário. (Marcos Tarciso Masetto. p. 35-37

Comentários»

1. Guilherme Orlandini - Abril 24, 2008

Bom, no meu modo de ver, é bastante complicado analisar estes dois elementos de forma separada, pois, mudando-se a maneira de ensino, muda-se automaticamente a maneira de aprendizagem.O que pode e deve ser feito é dar condições para que o aluno melhore a sua capacidade de aprender por si própio, ou seja, uma vez estabelecido um “norte” pelo professor, ele ter a capacidade de sair em busca do conhecimento.O texto em questão trata da “ênfase na aprendizagem”, mais como? Será que isto é realmente possível de fazer, deixando o elemento “ensino” em segundo plano? Aliás, outra pergunta: O que vêm primeiro, o ensino ou a aprendizagem?🙂

2. Adalberto Crispim - Abril 25, 2008

Como já expressei anteriormente, o professor em sala de aula deve fazer os dois papéis, o de ensinar e capacitar o seu aluno para que a partir da fala do professor, o aluno possa ser agente ativo e responsável pela sua aprendizagem. Nossos alunos vêm de um conceito de escola, que se baseava em passar os conteúdos e verificar posteriormente o quanto desse conteúdo o aluno reteu. Dar abertura para que o aluno expressasse o seu raciocínio não era permitido. Neste modelo de escola o indivíduo e toda a sua bagagem de vida era desprezado. O ideal era que fossemos apenas um facilitador na busca das respostas de nossos alunos, entretanto, muitos deles chegam a nós serm ao menos saber o que deseja (tanto da matéria, quanto da vida). Considerando este contexto, devemos primeiramente preencher as lacunas dos conceitos que o aluno não tem, ou que acha que não tem, e a partir de um determinado momento, quando já se tem alguma base, instigá-lo a ser o agente da sua aprendizagem e assim colaborar na construção de um profissional capacitado e sobretudo num cidadão que consegue fazer uma leitura do mundo ao seu redor e usar seu conhecimento para gerar riqueza.

3. João Maurício Hypólito - Abril 26, 2008

Cabe ao professor pensar:
O que acho importante ensinar?
Como vou ensinar?
Como gosto ou prefiro ensinar?
Como me é mais fácil ensinar?

Pessoalmente vivo outros dilemas:
Se eu fosse o aluno, entenderia o que vou dizer?
Será que não é possível ao aluno obter o saber por si e depois discutir comigo?
Se sim, como estimulá-lo a iniciar esta jornada?

Penso diferente?
Antes de dizer questiono. Não seria o encontro entre “professor” e “alunos” uma rotulação um tanto quanto antiga? Antes se vê o objeto principal do evento: aumentar o saber e construir conhecimento. Se visto assim o encontro entre as partes passa a ser alvo de diferentes formas de troca de experiências. O sentido não é unidirecional como talvez alguns pensem (não ouso dizer maioria, pois minha base não é ampla e nem consigo avaliar a medida da amostra para estabelecer a afirmação), mas entendo ser possível que alguns realmente pensem que a troca é unidirecional, do “professor” para o “aluno”. Não vejo assim. Por isso talvez não entenda a preocupação em abrir o debate daquilo que para mim já é diferente em si. Não vejo na troca de experiências, muitas vezes, nem os papéis a que se prestam as partes. Quem é o professor? Onde está o aluno?
Neste sentido amplo da troca de experiências entendo que possam acontecer e se desenvolver diferentes formas de estímulo na participação do sedimento do saber. Invariavelmente os papéis se invertem. As ações podem ser multifocais (abolindo de vez o contorno de uma estrutura curricular estratificada em disciplinas estanques e muitas vezes não associativas), nesta linha as ações dos participantes podem e devem ser multidimensionais – é fácil fugir do termo interdisciplinar🙂.
Chegamos, talvez, a questionar o espaço onde as ações podem se desenvolver. A troca de valores necessariamente deve se dar em um espaço restrito? Podemos buscar diferentes ambientes. Ambientações experimentais onde se possa “jogar” simulações de cenários multifocais e que permita a participação de pessoas “mais experientes” que encaminhem a uma troca com os “menos experientes” naquela simulação ambiental. Nada de muito divagar: Jogos de empresas, escritórios pilotos, empresas júnior são, neste foco, importantes formas de se estabelecer troca de experiências.
Mas como agir e participar neste cenário recebendo “alunos” que foram, em toda sua vida de estudante, “treinados” a não agir ou “participar” no e do processo de troca de experiências? Bem, toda a mudança deve ser gradual. A maré não mudar em uma onda. Talvez nos caiba vislumbrar e persistir.

4. Carlos Alberto - Abril 29, 2008

Considerando ensino/aprendizado um processo único e qualquer que seja a metodologia utilizada o docente deve ser o agente facilitador neste processo. A figura inquestionável e superior do docente, que passa o conhecimento e o cobra mediante algum ferramenta diagnóstica felizmente está sendo modificada e a tendência é alcançarmos melhores resultados na formação e capacitação dos nossos alunos.

5. Marco Castro - Abril 30, 2008

A ênfase no processo de aprendizagem em vez de no processo de ensino constitui uma mudança de paradigma ainda a ser implantada, em grande parte.
Uma questão importante a ser trabalhada refere-se aos obstáculos a essa mudança. Quais são esses obstáculos? Como eles podem ser superados? Existe resistência do professor? Pode ser uma questão de má vontade do professor? Ou será uma questão de falta de conhecimento ou habilidade para implementar essa mudança?
A mudança para a ênfase no processo de aprendizagem coloca o professor no centro do processo.


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