jump to navigation

Texto 5 – De 19 até 25/05/2008

A problematização e a aprendizagem baseada em problemas: diferentes termos ou diferentes caminhos?

Neusi Aparecida Navas Berbel

Algumas escolas que preparam profissionais para a área da saúde têm surpreendido a comunidade interna e externa com inovações importantes na maneira de pensar, organizar e desenvolver seus cursos. Inspirados em exemplos de experiências de mais de 30 anos, várias escolas de Medicina no Brasil vêm buscando adotar a Aprendizagem Baseada em Problemas (Problem Based Learning – PBL ) em seus currículos.

Tais inovações têm tido repercussões importantes. Tanto as positivas, por suas características, pressupostos e conseqüências diferenciadas, provocadas pelo discurso e pela prática daqueles que passam a apreciar as novas maneiras de ensinar e de aprender, quanto as negativas, provocadas pelas resistências naturais às mudanças e também por aqueles que, apressados, fazem pequenas adaptações em suas práticas tradicionais (e então os resultados em geral não são os esperados).

Neste texto exponho ao leitor o nosso entendimento até o momento e que nos permite uma designação diferente para as duas propostas: a primeira – como Metodologia da Problematização e a segunda – provisoriamente como Proposta Curricular de Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL).

A Metodologia da Problematização: algumas características.

A primeira referência para essa Metodologia é o Método do Arco, de Charles Maguerez. Nesse esquema constam cinco etapas que se desenvolvem a partir da realidade ou um recorte da realidade.

Estamos conscientes de que nem sempre é a alternativa mais adequada para certos temas de um programa de ensino. Quando oportuna, a Metodologia da Problematização pode ser desenvolvida como segue.

A primeira etapa é a Observação da Realidade social, concreta, pelos alunos, a partir de um tema ou unidade de estudo. Os alunos são orientados pelo professor a olhar atentamente e registrar sistematizadamente o que perceberem sobre a parcela da realidade em que aquele tema está sendo vivido ou acontecendo, podendo para isso serem dirigidos por questões gerais que ajudem a focalizar e não fugir do tema.

Tal observação permitirá aos alunos identificar dificuldades, carências, discrepâncias, de várias ordens, que serão transformadas em problemas, ou seja, serão problematizadas. Poderá ser eleito um desses problemas para todo o grupo estudar ou então vários deles, distribuídos um para cada pequeno grupo.

Para realizar as atividades da segunda etapa que é a dos Pontos-Chaves, os alunos são levados a refletir primeiramente sobre as possíveis causas da existência do problema em estudo. Por que será que esse problema existe? A partir dessa análise reflexiva, os alunos são estimulados a uma nova síntese: a da elaboração dos pontos essenciais que deverão ser estudados sobre o problema, para compreendê-lo mais profundamente e encontrar formas de interferir na realidade para solucioná-lo ou desencadear passos nessa direção.

A terceira etapa é a da teorização. Esta é a etapa do estudo, da investigação propriamente dita. Os alunos se organizam tecnicamente para buscar as informações que necessitam sobre o problema, onde quer que elas se encontrem, dentro de cada ponto – chave já definido. Vão à biblioteca buscar livros, revistas especializadas, pesquisas já realizadas, jornais, atas de congressos etc.; vão consultar especialistas sobre o assunto; vão observar o fenômeno ocorrendo; aplicam questionários para obter informações de várias ordens (quantitativas ou qualitativas); assistem palestras e aulas quando oportunas etc.

As informações obtidas são tratadas, analisadas e avaliadas quanto a suas contribuições para resolver o problema. Tudo isto é registrado, possibilitando algumas conclusões, que permitirão o desenvolvimento da etapa seguinte.

A quarta etapa é a das hipóteses de solução. Todo o estudo realizado deverá fornecer elementos para os alunos, crítica e criativamente, elaborarem as possíveis soluções. O que precisa acontecer para que o problema seja solucionado? O que precisa ser providenciado? O que pode realmente ser feito?

Nesta metodologia, as hipóteses são construídas após o estudo, como fruto da compreensão profunda que se obteve sobre o problema, investigando-o de todos os ângulos possíveis.

A quinta e última etapa é a da Aplicação à Realidade. Esta etapa da Metodologia da Problematização ultrapassa o exercício intelectual, pois as decisões tomadas deverão ser executadas ou encaminhadas.

Completa-se assim o Arco de Maguerez, com o sentido especial de levar os alunos a exercitarem a cadeia dialética de ação – reflexão – ação, ou dito de outra maneira, a relação prática – teoria – prática, tendo como ponto de partida e de chegada do processo de ensino e aprendizagem, a realidade social.

A Proposta Curricular de Aprendizagem Baseada em Problemas e algumas de suas características

O PBL é o eixo principal do aprendizado teórico do currículo de algumas escolas de Medicina, cuja filosofia pedagógica é o aprendizado centrado no aluno. É baseado no estudo de problemas propostos com a finalidade de fazer com que o aluno estude determinados conteúdos. Embora não constitua a única prática pedagógica, predomina para o aprendizado de conteúdos cognitivos e integração de disciplinas. Esta metodologia é formativa à medida que estimula uma atitude ativa do aluno em busca do conhecimento e não meramente informativa como é o caso da prática pedagógica tradicional.

Comparação entre a Metodologia da Problematização e a Aprendizagem Baseada em Problemas

Na Metodologia da Problematização, os problemas são identificados pelos alunos, pela observação da realidade, na qual as questões de estudo estão acontecendo. Observada de diferentes ângulos, a realidade manifesta-se para alunos e professores com suas características e contradições, nos fatos concretos e daí são extraídos os problemas. A realidade é problematizada pelos alunos. Não há restrições quanto aos aspectos incluídos na formulação dos problemas, já que são extraídos da realidade social, dinâmica e complexa.

Na Metodologia da Problematização não há controle total dos resultados em termos de conhecimentos. Eles são buscados para responder ao problema em estudo, este entendido amplamente, considerando-se suas possíveis causas e determinantes, que em geral ultrapassam os aspectos técnico-científicos. Os resultados não são de todo previstos, a não ser em termos da vivência das atividades pelo aluno em todas as etapas do processo. Os conteúdos tanto podem não satisfazer ao professor em termos do que gostaria de ver apreendido pelos alunos, quanto podem surpreender ao professor e ao próprio grupo quando descobrem aspectos e relações não previstos. Se ocorre o primeiro caso, o professor poderá / deverá providenciar outra forma e momento para suprir o essencial do programa não atingido naquele tema.

Na Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL), os problemas são cuidadosamente elaborados por uma Comissão especialmente designada para esse fim. Deve haver tantos problemas quantos sejam os temas essenciais que os alunos devem estudar para cumprir o Currículo, sem os quais não poderão ser considerados aptos para exercer a profissão.

Pela própria responsabilidade em garantir os conhecimentos mínimos exigidos pelo Currículo, na Aprendizagem Baseada em Problemas os objetivos cognitivos são todos previamente estabelecidos e os construídos pelos estudantes deverão coincidir com os dos especialistas do Currículo. Em caso contrário, os problemas devem ser substituídos para que se encontrem outros mais efetivos para provocar tais aprendizagens.

Comentários»

1. Edio - Maio 19, 2008

Pelo que tenho visto tanto como aluno de graduação e pós-graduação como professor no terceiro grau é que o processo de Aprendizagem Baseada em Problemas está, em certo grau, sempre presente nos ambientes acadêmicos, ainda que de forma eminentemente pulverizada.

Todo bom professor (que é um eterno aluno/pesquisador) e todo bom aluno (que amiúde não se contenta com o conteúdo do ementário) acabam sempre operando de modo a buscar a problematização para os assuntos que aos poucos vão sendo administrados em cada uma das disciplinas durante o período letivo.

É possível verificar, portanto, guardadas as devidas proporções, uma micro-célula da Aprendizagem Baseada em Problemas a cada vez que um professor envolve seus alunos em um problema relativo ao conteúdo da disciplina que ministra e os impulsiona a pesquisar sobre o assunto para que alguns resultados sejam apresentados num próximo encontro, que normalmente ocorre uma semana depois nas graduações – uma vez que as aulas são semanais.

O que Berbel parece sugerir enquanto possibilidade é a sistematização do processo de Aprendizagem Baseada em Problemas para outros cursos, momento em que uma organização e uma ordem (mesmo cronológica) deve ser seguida para que a aplicabilidade do processo ultrapasse as barreiras teóricas e atinja um grau de funcionalidade significativo, tornando viável e real (palpável, mensurável) o resultado desse aprendizado que deve ser, tal como ela mesmo observa, centrado no aluno.

Essa atitude, no entanto, requer organização (sistematização) e tempo (distribuição inteligente no plano de curso e de aula), uma vez que o modelo citado parece não se restringir ao intervalo de uma semana, tão somente.

Por outro lado, incentivar e disseminar pequenas células dessa aprendizagem nas várias disciplinas de uma graduação de modo que elas fiquem bem distribuídas ao longo dos bimestres e semestres parece (e é) sempre uma boa idéia, mormente para pesquisadores/professores que não estão totalmente certos ou seguros de que isso pode apontar para um caminho possível enquanto meio de produzir conhecimento.

E ainda que a maioria dos alunos acabe por decepcionar um pouco (o que acontece com certa freqüência), alguns poucos eventualmente impressionam pela acuidade e presteza, momento em que o processo pode ser nivelado num degrau imediatamente superior, fenômeno que costuma caracterizar o gérmen progressivo de qualquer pesquisa efetivamente séria.

2. Carlos Otoboni - Maio 26, 2008

Não sou um profundo conhecedor da metodologia PBL mas, pelo que tenho conhecimento, é um processo que tem levado as escolas praticantes a grandes níveis de aprendizado. Pelo que sei, trabalha-se em pequenos grupos e os problemas inerentes aos conteúdos formativos são discutidos e resolvidos nos grupos, pelos próprios alunos, sendo o professor um facilitador desse aprendizado. Ou seja, a prática se apóia na teoria para a solução dos problemas da sociedade, o que a meu ver é um caminho bastante interessante para o “aprender fazendo”.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: